O Imortal

Written By Ana Claudia Gomes on segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015 | 06:20

Juvenício era analfabeto de pai e mãe. E em antes de dezoito anos, não pôs sapatos nos pés. Morreu-lhe o pai, Juvenício foi à enxada. E o dinheiro não cobria nem o fundinho do cofre. Finalmente, resolveu dar ouvidos à mãe, que sempre dizia: estuda, fio! É sua única chance.
Isso era dantes. Estudo fazia diferença. Agora não, tá mais democrático; menino sem escola pode ganhar mil vezes mais que seu professor. Fácil, fácil. E é isso que importa.
Juvenício fez Mobral, madureza... Eu não disse? Essa história é antiga! De repente, viu-se no Mestrado em Literatura. Olhou em volta e falou sem voz: só tem sangue-azul aqui! Só eu de preto! Vou acabar na escravidão.
Sentou desconfiado, dormia nas aulas de Latim, mas não sem antes aprender que era um homo sapiens sapiens sapiens... Padre Grimaldi entendia, sabia que Juvenício trabalhava e estudava.
Quando leram os escritos engarranchados de Juvenício, os professores piraram. Até então, perguntavam-se o que fazia ali aquela estranha figura. Houve até um colega que, bêbado, numa festa de confraternização da turma, resolveu falar o que achava de cada mestrando. Chegando em Juvenício, ele engoliu em seco e baixou o tom de voz: ninguém sabe o que quer o Juvenício. Afinal, Juvenício ouvia falar de Dostoievsky e pensava: ainda tenho muito que ler...
Deu metade do mestrado, Professor não aguentou: Juvenício, venha direto para o doutorado! Eu, hein? Pensou Juvenício. Só tem sangue-azul...
Deixou o diploma do mestrado na casa de um amigo fiel, pois lá o papel teria muito mais utilidade. E caçou um ranchinho num fim de mundo, onde, para se chegar, era preciso passar pelas seguintes placas, nessa ordem: Vendo Barato; Vende-se Chacra; Chácara do Poeta; Rua da Lagoa; Rua da Cachoeira.
Juvenício ficou no início desta. Assim, quedava incógnito aos raros turistas que desciam à cachoeira. E nos dias em que não dava turista, ele descia e molhava os pés male-male na beira da fria prainha. Só queria ouvir o som, o som, o som...
Quando acabava o caderno, Juvenício, a muito custo, ia à padaria e comprava muito pão. Na realidade, o seu interesse era o papel do pão. Pois nele escrevia delicadas letras de gentileza. Os pães, comia alguns no primeiro dia. Depois fazia pudim, rabanada, dava aos cães de rua.
Professor tanto escavou, que não achou Juvenício na Rua da Cachoeira? E blá-blá-blá. Leu uns cadernos do ex-aluno, pirou. Juvenício, temos que publicar essa obra! Ela é universal! Juvenício deu uma baforada, olhou de esguelha e disse: desde que você não venha aqui pagar os direitos autorais... Professor estranhou, mas respondeu: então tá. Se você não quer ganhar dinheiro...
Juvenício lembrou do fundo do cofre e pensou: quero lá saber o que os leitores vão pensar do que eu escrevi? Escrevi há tanto tempo... Nem lembro mais o que tem nesses cadernos. Professor não entende, coitado. Que o bom do caminho é caminhar. Fica só preocupado com a nota da Capes.
De vez em quando sentia tédio quando via o Professor abrindo a porteira. Mas lhe cedia os cadernos já preenchidos. Que, aliás, o motorista do ônibus comprava e trazia para ele, quando retornava da cidade.
Mas um dia, o tempo fechou. Apareceram na porteira de Juvenício uns quatro homens de beca preta e estranhos chapéus, que pareciam de formatura. Disseram: Juvenício, viemos convidá-lo para ser um imortal! Juvenício fingiu de égua e disse: seu moço, o senhor me adesculpe, mas eu pretendo morrer morto, mortinho, quando a minha hora chegar. E enquanto os senhores desfiavam sua cantilena, ele imaginava nuvenzinhas, passarinhos saindo de sua própria orelha, e até lembrou uma canção de um outro maluco beleza, como ele: “não planto capim-guiné pra boi abanar rabo”. Sentiu saudade do antigo vinil, que deixara para trás ao mudar-se para perto da cachoeira.
Os elegantes senhores pensaram todos ao mesmo tempo: será que esse homem genial não sabe o que é ser imortal? Ou erramos de endereço? Tudo assim, pensamentos sincronizados. Foram ver se achavam outro Juvenício nas redondezas. Suando em bicas, naquelas roupas pretas sob o sol do verão.
Juvenício picava seu fumo de rolo e pensava: aqui já não é mais seguro pra mim. E agradeceu aos céus por só ter quatro caixas. Mudou, ninguém viu. Morreu morto, mortinho, aos cento e dois anos de idade. Não sem antes mudar muitas vezes de endereço porque vinha a imprensa, a demência, a maledicência. O Professor sempre o achava e um dia ele brincou: Professor, o senhor devia ter feito arqueologia.
Tem uns abestalhados aí dizendo que ele é imortal. Mas tá lá, morto, mortinho, e fazem fila para passar junto ao lugar que representa a sua memória.
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