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Histórico de Betim

Written By Ana Claudia Gomes on terça-feira, 15 de maio de 2018 | 09:48


As mais remotas notícias sobre a ocupação da região de Betim, afora a ocupação provável por indígenas semi-nômades, remonta ao início do século XVIII. Toda a região hoje denominada Minas Gerais estava agitada à época; a descoberta de riquezas minerais atraía aventureiros em busca de glória e outros tantos, em seu rastro, ocupados em sobreviver.
O ambiente era de mobilidade espacial constante. A região onde hoje fica Betim fazia parte de uma importante rota que vinha de São Paulo a Pitangui – e era a rota dos bandeirantes atraídos pelas descobertas minerais na citada povoação – e também da rota de abastecimento que vinha da Bahia às Minas.
A importância desta última rota só ganha dimensão a partir do olhar mais atento dos historiadores sobre a diversificação econômica das Minas no auge da mineração. As Minas vinham sendo vistas como lugar de escassez, de total dependência do abastecimento proveniente de outras capitanias e concentração da atividade econômica na mineração. Novos estudos têm demonstrado a importância da produção própria e da circulação de mercadorias no interior da capitania.
Betim, antes de assim se chamar, fazia parte deste entrecruzar de caminhos. Por aqui, chegavam os escravos transferidos do nordeste para as Minas, que eram registrados na localidade das Abóboras, depois denominada, por isso, Contagem das Abóboras. Em Contagem, também se registrava o gado entrado nas Minas e destinado a abastecê-las. A contagem, evidentemente, tinha objetivos fiscais. Também por essa razão o primitivo nome de Belo Horizonte era Curral D’El Rey, ou seja, o local onde o gado era armazenado, depois distribuído, tendo sido devidamente taxado.
A descoberta de ouro em Minas Gerais, em 1690, quando já estava decadente a indústria do açúcar no litoral nordestino, proporcionou novas atividades econômicas ao sistema colonial português. A coroa proibiu qualquer plantação de alimentos ou criação de gado na zona aurífera, para não desviar mão-de-obra da mineração. Assim os garimpos tornaram-se centros de compra de alimentação e de animais de transporte. É claro que houve resistência a tal proibição, como mostra a instalação de criadores de gado em Betim bem no início do século XVIII, conforme se comenta adiante.
Era proibido aos tropeiros ou viajantes pousarem nas estradas ou caminhos do município impedindo o trânsito. Tinham que afastar os animais do centro da estrada. Era de interesse da coroa portuguesa que os caminhos às vilas fossem de fácil acesso, pois dessa maneira, além de abastecê-las dos mais diversos gêneros, facilitava-se também a saída do metal precioso para o erário real. Com esses intuitos, foram emitidos bandos e outras ordens reais que se destinavam à construção de pousadas para viajantes e a manutenção dos caminhos de acesso às vilas do ouro. Em um dos primeiros núcleos de povoação da atual Betim, logo no início do século XVIII, foi construído um casarão destinado ao uso como pousada venda de secos e molhados, especialmente para as tropas que por aqui passavam. Este casarão abriga atualmente a Casa da Cultura Josephina Bento.
O fato de Joseph Rodrigues Betim ter solicitado uma sesmaria nesta região em 1711 não foi um acaso depois tornado conhecido por ter originado uma povoação. Provavelmente, esta solicitação fez parte de uma estratégia dos grupos paulistas, então em franco confronto com os portugueses preocupados em garantir a si próprios a reserva da área em que se encontravam os minerais preciosos. Como se sabe, os paulistas foram os pioneiros das descobertas, mas foram imediatamente confrontados pelos “reinóis” que, como colonizadores, se sentiam no direito de se apossar das riquezas.
Ora, em 1708 ocorrera um sangrento conflito entre bandeirantes paulistas e portugueses, conhecido como Guerra dos Emboabas. Emboabas foi o nome dado pelos paulistas aos “reinóis”, e significava “estrangeiros”, “invasores”. Apesar da maneira razoável como o conflito se resolveu em prol dos paulistas, estes se sentiam ameaçados: percebiam que cabia a eles a tarefa de localizar veios auríferos, mas que a posse dos mesmos não se encontrava assegurada, na medida em que os “reinóis” a cobiçavam. Daí intensificar-se a solidariedade entre estes aventureiros que, na historiografia oficial, figuram como heróis.
A solicitação de sesmaria por Joseph Rodrigues Betim, ligado por parentesco e amizade ao famoso bandeirante Borba Gato, deve ter visado assegurar a posse de um importante caminho e parada, vital para o empreendimento bandeirante. Ao contrário do que diz em sua petição, Betim não desejava estabelecer-se nestas terras e lavrá-las, como não o fez, mudando-se logo para Pitangui, antes mesmo de obter a confirmação real da doação da sesmaria, o que se dava cerca de três anos após a doação propriamente dita; nesta ocasião, avaliava-se o desenvolvimento da sesmaria, isto é, se houvera estabelecimento do sesmeiro e escravaria, exploração do solo ou subsolo, povoação... Joseph Betim não a obteve e nem mesmo solicitou-a, segundo o minucioso trabalho do historiador Geraldo Fonseca (1975). Este estudioso inclusive contesta poder Joseph Betim figurar como fundador da povoação ou como responsável pela ereção de duas capelas em sua sesmaria; obter autorização para erigir capelas era, à época, processo complexo e lento, sendo improvável que o bandeirante o tenha alcançado em dois anos durante dos quais deve ter permanecido nestas paragens. Não se encontraram documentos que comprovem a solicitação da ereção das capelas por Joseph Betim na sesmaria onde hoje se localiza o município de Betim, e sim em Pitangui, onde o pioneiro logo depois se estabeleceu. Primitivos estudiosos destes documentos podem ter se enganado quanto às capelas.
Assim, do primeiro proprietário das terras onde hoje fica Betim, ficou seu nome, primeiro aplicado ao Ribeirão da Cachoeira, tornado Betim, depois adotado pelo povoado surgido em torno da primeira capela. É muito provável que a memória social local tenha “exagerado” a participação de Joseph Rodrigues Betim na primitiva formação do povoado, porque o referido bandeirante era um verdadeiro potentado, aparentado e ligado por relações de solidariedade com alguns dos mais destacados bandeirantes brasileiros, o que conferiria uma origem “nobre” a Betim, preferível a admitir que a povoação fora fundada por anônimos.
Nas primeiras décadas após a doação da sesmaria a Betim, a região consolidou-se como local de passagem e parada dos tropeiros. Outros sesmeiros atuavam na região porque, quando a Coroa Portuguesa doava sesmarias, fazia-o “por atacado”, a fim de que os sesmeiros pudessem contar com uma vizinhança importante para a segurança e o estabelecimento de vínculos sociais. Os sesmeiros aqui estabelecidos juntamente com Joseph Rodrigues Betim em 1711 foram João de Souza Sotto Mayor (criador de gado) e João Leite da Silva Ortiz.
Entre 1711 e 1750, a sesmaria de Betim recebeu diversos núcleos de povoação, coincidentes com os pontos de parada dos tropeiros. O primeiro deles a ganhar importância foi o da Bandeirinha do Paraopeba. Seu nome deve ter se originado no fato de o local em que se estabeleceu ter sido objeto de uma “bandeirinha”, isto é, uma pequena expedição em busca de minerais ou um “ramo” de uma bandeira.
De fato, os bandeirantes paulistas, reunidos na Câmara de São Paulo em 1730, deliberaram que, uma vez aberto o caminho das bandeiras até Sabarabussu, que fossem enviados pequenos grupos que plantassem roças em pontos estratégicos, para o suprimento das futuras expedições bandeirantes. Assim nasceram as bandeirinhas.
O arraial da Bandeirinha é o primeiro de Betim a aparecer na documentação oficial, quando pede autorização para construir uma capela, em 1753, e a recebe em 1754. Para o período, a construção de uma capela era um primeiro sinal de estabelecimento de um povoado. Isso independia da religiosidade propriamente dita da comunidade, visto que a Igreja era responsável pelos registros de nascimento, casamento e morte e por todos os ritos que conferiam identidade aos potentados e à gente média do local. As pessoas andavam enormes distâncias até a capela mais próxima, e era por isso que os “homens bons” de cada local se empenhavam na construção de capelas em suas terras, a fim de evitar o desconforto de suas famílias e agregados.
Quando solicitaram a construção de sua capela, quiseram que isso se desse num monte, razão pela qual a capela ficou distante do pioneiro núcleo de povoação. Assim, por volta de 1770, foi levantado um cruzeiro na Bandeirinha, o qual foi benzido solenemente no dia de Santa Cruz. A partir daí, iniciou-se a Festa Anual de Santa Cruz (fim de abril ou início de maio), que continua sendo realizada no atual bairro Bandeirinha. No século XVIII, essa festa era tão concorrida quanto a da padroeira.
A capela do arraial da Bandeirinha foi construída imediatamente, o que dá uma medida da prosperidade da região. A construção e a equipagem da capela precisavam obedecer a certas regras da Igreja e demandavam recursos, geralmente obtidos por subscrições da comunidade. A capela foi erigida onde hoje se encontra a Praça Milton Campos, de frente para o arraial da Bandeirinha – portanto com os fundos para o futuro centro histórico de Betim – e recebeu o nome de Capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Como já havia outras capelas na região, em Mateus Leme e Santa Quitéria – hoje Esmeraldas – o novo templo tornou-se conhecido como Capela Nova do Betim, nome que depois se estendeu ao arraial.
Entre 1760 e 1800, o arraial cresceu em importância, como indica a instalação de forças policiais reais e a elevação da localidade a distrito em 1797, fato confirmado pela Câmara de Sabará em 1801.

Trajetória sócio-econômica e administrativa
Ao longo desse período, despontou o primeiro verdadeiro potentado da extensa região de Capela Nova do Betim, João Nogueira Duarte, proprietário da Fazenda Serra Negra, cuja produção, extensão (730 alqueires) e escravaria (centenas) eram notórias na capitania. Já na década de 1770, Nogueira Duarte detinha cargos de nomeação direta da rainha D. Maria I, o que dá uma medida de seu reconhecimento oficial. O pioneiro era português, tendo primeiro se estabelecido em Congonhas do Campo. A importância de sua família e daqueles aos quais se ligou por casamento e negócios está atestada em documentos oficiais. Seus descendentes constituíram importante tronco genealógico em Betim, tendo muitos ocupado cargos militares e eclesiásticos de destaque.
A partir de meados do Século XIX, Betim participou da retração econômica e decadência que atingiu toda a antiga zona de produção aurífera. Desenvolve-se, então, uma atividade econômica de subsistência, quase sempre fundamentada na fazenda autárquica. Às margens do Rio Betim, se instalaram olarias e moinhos de fubá, estes últimos beneficiários das quedas d’água, chegando somar 35. Restam na cidade vestígios das edificações desses estabelecimentos, além de instrumentos empregados na produção.
O viajante James Wells (1995) esteve em Capela Nova e em suas adjacências durante o oitocentos, assim se manifestando sobre a localidade:

Capela Nova do Betim é avistada muito antes que eu a alcance. Sua longa rua de casas brancas e telhas vermelhas fica situada proeminentemente sobre um morro alto, cercado de vales fundos e de morros mais altos e cadeias de montanhas. A estrada desce da região alta que eu tinha atravessado, cruza um vale e sobe por uma ladeira larga e íngreme, com casas separadas, casebres e ranchos de cada lado. Chegando ao topo, ela se une a outra rua em ângulo reto, ou melhor, a uma longa praça aberta, com filas de casas de porta e janela amontoadas e uma igreja simples, caiada, em uma extremidade. Há diversas vendas e armazéns de secos e molhados e ranchos abertos para tropas de mula. (...) Uns poucos matutos, em seus matungos esquálidos, montados com seus dedões do pé enfiados em pequenos estribos e usando o inevitável poncho de baeta ou tecido azul listrado de vermelho; umas poucas mulheres negras ou mulatas, vestidas com saias de algodão e xales espalhafatosos e batas brancas, apregoando frutas ou doces em tabuleiros de porta em porta; uns poucos vadios nas vendas e armazéns; algumas cabeças nas janelas assistindo apáticas à cena para a qual passam diariamente olhando e os numerosos porcos, bodes, cachorros, galinhas, perus e galinhas d’angola da rua constituem a restrita vida presente nesta vila sonolenta (p. 121-2).

O século XX alvoreceu em Betim sob o signo da implantação da infra-estrutura que posteriormente faria da região um pólo industrial. Em 1909, a Schnoor Engenharia obteve empreitada junto ao Governo Estadual para construir 155 km da seção BH – Henrique Galvão (atual Divinópolis) da Estrada de Ferro Oeste de Minas. O engenheiro Antônio Gonçalves Gravatá, então funcionário da Schnoor, sugeriu a construção de uma usina hidrelétrica na principal queda d’água do Rio Betim, que tinha 84 metros. A hidrelétrica foi construída por Gravatá, em suas terras (Fazenda Cachoeira), com recursos próprios e de seu empregador Emílio Schnoor. Inaugurada em 1914, com capacidade de produção de 250 kw, a hidrelétrica chegou a fornecer energia para Henrique Galvão. Em 1945, até Contagem recebia energia gerada pela usina.
Nem a ferrovia nem a hidrelétrica alteraram significativamente a atividade econômica em Betim, que permaneceu especializada na produção de gêneros alimentícios, principalmente arroz, milho, mandioca, feijão, cana-de-açúcar e algum gado.
O território onde está Betim havia sido pertencente à Vila de Sabará, cuja jurisdição era imensa, desde o início da ocupação. Em 1901, pouco depois da instalação do regime republicano no Brasil, houve uma reforma político-administrativa do Estado brasileiro, que se desdobrou na divisão do território em estados e municípios. Foi então que surgiu o estado de Minas Gerais, com 11 grandes municípios, sendo um deles o de Santa Quitéria ao qual Capela Nova ficou subordinada, até perdendo algo da autonomia adquirida em 1897. Não houve resistência do arraial à subordinação a Santa Quitéria porque os potentados locais, João Nogueira Duarte à frente, mantinham boas relações com os líderes santaquiterienses.
Por volta de 1910, a cidade desenvolveu um novo desenho urbano em função da passagem da linha férrea, que se instalou a aproximadamente uns setecentos metros da parte posterior da Praça Milton Campos – até então tida como região central. É comum no meio popular a afirmativa de que “a cidade cresceu para trás, nas costas da Igreja [antiga Matriz onde hoje está a Praça Milton Campos]”. Percebe-se, dessa forma, uma formação urbana que desloca o eixo central da cidade para a confluência das avenidas Governador Valadares e Amazonas, em detrimento ao “antigo” centro, na Praça. Este momento histórico trouxe uma inédita dinâmica sócio-urbana para o município, mas a população do campo se manteve superior à urbana, que, inclusive, manteve um crescimento vegetativo.
Betim tornou-se município por decisão estadual e federal em 1938. Isso não foi fruto de mobilização local, mas de uma nova divisão administrativa do Brasil, promovida neste ano. Essa nova divisão administrativa foi estudada por uma comissão criada por Olegário Maciel desde 1932, obedecendo a determinação federal[1]. Minas Gerais, nesta ocasião, passou a ter 71 municípios. Fonseca (1975, p. 105), embora registre uma manifestação organizada pelo padre Osório Braga, numa ocasião em que o governador Benedito Valladares passava por Betim, prefere creditar a emancipação de Betim a uma querela do próprio Valladares com Santa Quitéria. O referido município teria feito oposição ao líder político e este, para puni-lo, lhe teria tirado parte significativa do território, ao criar o município de Betim.
O recém-criado município de Betim – que também era comarca, isto é, sede do poder judiciário – compreendia os atuais territórios de Contagem, Campanha, Ibirité e Ribeirão das Neves. Novas reformas em 1948, 1960 e 1962 reduziram o território de Betim para a configuração atual – 376 km².
Nas décadas de 1940 e 1950, Betim volta a ter importante função de local de passagem das rotas de abastecimento, desta vez destinadas à capital, Belo Horizonte. O planejamento estadual destinou a Betim duas outras funções econômicas: a industrialização de base ou de bens de capital, representada pelas siderúrgicas aí instaladas, e a produção de alimentos para o abastecimento da capital. Juntamente com Pedro Leopoldo, Santa Luzia, Nova Lima, Sabará, Vespasiano e Lagoa Santa, Betim constituiria o chamado “Cinturão Verde” de Belo Horizonte. Entretanto, nenhuma destas duas intenções político-econômicas alterou substancialmente a economia betinense, que permaneceu intensamente voltada para a subsistência. Pelo Censo Demográfico de 1940-1950, feito pelo IBGE, 51% da população urbana de Betim estava ocupada com “Atividades Domésticas e Escolares”, enquanto que 31,78% classificavam-se sob a rubrica “Condições Inativas e outras”.
Ainda na década de 40, instalam-se as primeiras indústrias de Betim, ligadas à constituição do Parque Siderúrgico Nacional[2], nos anos 1940: Cerâmica Saffran (1942), Ikera (1945), Cerâmica Minas Gerais (1947). Essa primeira industrialização pode ser atribuída a uma elite industrialista local, mais integrada com a localidade, mais comprometida com a absorção da mão-de-obra da região e, por seu caráter mais tradicional, pouco agressiva sobre o tecido urbano. Fez parte da constituição do Parque Siderúrgico Nacional a criação da Cidade Industrial de Contagem, cuja extensão abrangeu Betim.

"A instalação da Cidade Industrial gerou na tradicional elite betinense o impulso para a instalação de novas atividades industriais na região da sede histórica da cidade. Desta forma, indústrias cerâmicas e de refratários foram inauguradas nas proximidades da área de ocupação inicial do município e longe da nova industrialização que ocorria em Contagem, na divisa com Belo Horizonte. Essas empresas serviram de suporte ao polo siderúrgico local – instalado nas proximidades do centro tradicional da cidade e inaugurado na década de 1950 – e supriram as necessidades do polo siderúrgico do Vale do Paraopeba, que congrega os municípios de Mateus Leme, Itaúna, Pará de Minas e Divinópolis." (RODRIGUES, 2020, p. 60). 

Nos anos 50, muda o eixo da industrialização brasileira – decresce o investimento nas indústrias de bens de capital, como as siderúrgicas primeiramente instaladas em Betim e volta-se o foco para a produção de bens de consumo duráveis, para a substituição das importações. A partir daí, Betim, por sua oferta privilegiada de infra-estrutura, destina-se a se tornar pólo de atração das indústrias. Entretanto, isso se dá vagarosamente. Em 1954, a instalação de uma central geradora de energia da CEMIG, e em 1959, a construção do trecho Belo Horizonte - Extrema (sul de minas) da Rodovia Fernão Dias, que liga Belo Horizonte à capital paulista, começam a delinear as mudanças intensificadas nas décadas seguintes.
A Rodovia Fernão Dias, construída no governo do então presidente Juscelino Kubistchek, assume relevância no processo histórico em questão, por ter provocado um considerável número de loteamentos na porção central da cidade, durante a década de 1960. Algumas famílias, que já possuíam grandes áreas na região em volta da Praça Milton Campos (antigo Largo da Matriz) e na extensão da Av. Governador Valadares, promoveram a repartição dessas áreas com a finalidade de trazerem os familiares do campo para a cidade, ou para vender os lotes a terceiros. Já outras, que habitavam no meio rural, compravam terrenos próximos ao centro, ou na extensão da Rodovia, para praticarem o loteamento e se mudarem para o meio urbano.
Um dos maiores exemplos desta ação foi o loteamento do bairro PTB – sigla que significa “Posto Telegráfico de Betim”, por existir na linha férrea, que passa em frente ao bairro, tal posto. Praticamente durante toda a década de 1960 houve um certo arranjo territorial, embasado nas ações de configuração dos lotes e bairros novos, sendo a maioria implantados às margens da Rodovia.
Ainda na década de 60, chegam a Betim algumas indústrias de médio porte, quase todas de capital privado, à exceção da REGAP, e se instalam no Bairro Cachoeira, local tradicional da primeira industrialização de Betim, vinculado à presença da Av. Amazonas, do Rio Betim e da Ferrovia Oeste de Minas. São elas: Cortume Morumbi (1960), Fabril de Minas (sabões, 1962), Riomar (artigos de pesca, 1962), Fábrica São Geraldo (móveis, 1962), Fábrica São João (biscoitos, 1962), Frigorífico Silveli Torres (1964), Confecções Dora (1964), Siderúrgica Amaral (1965), Refinaria Gabriel Passos (1968), Asfalto Chevron (emulsão asfáltica, 1969), Sidero Manganês de Pellets (1969, a partir de 1974, chamou-se Siderúrgica Wilson Raid).
A Refinaria Gabriel Passos foi instalada em Betim porque o local constitui uma confluência de condições favoráveis à redistribuição de combustíveis. Entretanto, a economia local não foi dinamizada pela presença da refinaria. Nos anos 70, apenas uma indústria, a Asfaltos Chevron, havia sido atraída para o município em função da REGAP.
No início desta mesma década, a Prefeitura Municipal de Betim contraiu empréstimo junto à Caixa Econômica Federal para adquirir os terrenos que seriam doados tanto à Fiat Automóveis quanto à Krupp. Houve disputa entre os estados brasileiros e entre os municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte para sediar a Fiat. O que favoreceu Betim foi, além de suas condições infra-estruturais e da atuação política em seu favor, o esgotamento do espaço de Contagem. Ainda, um dos fatores de atração da Fiat para o Brasil/Minas/Betim foi a intensa propaganda desenvolvida pelo INDI (Instituto Nacional do Desenvolvimento Industrial) no exterior. O folheto de propaganda de título “Introduction to Minas Gerais” diz:

Muitos mineiros são altos, delgados, esbeltos e de pele clara, mas não existem barreiras de cor em Minas, nem em mito nem em fato. Homens e mulheres de todas as nações e de todas as raças são recebidos abertamente em Minas. Encontra-se também uma ausência de consciência de classe e esta atitude está combinada com o senso democrático de que todos os homens são iguais (MACHADO, 1979).

O então presidente da Fiat, Giovanni Agnelli absorveu a propaganda, conforme transparece de sua fala:

Um dos elementos principais para a instalação de um complexo industrial é a disponibilidade de mão-de-obra. Na zona de Minas Gerais, a disponibilidade é enorme e nos permitirá atingir uma média de 8 a 9.000 operários. Além do mais, o município de Betim comprometeu-se a criar escolas para a preparação do pessoal especializado, sob a orientação de instrutores italianos[3].

As negociações para a implantação da Fiat em Betim foram bastante rápidas: em fins de 1972, após ser eleito, o governador mineiro Rondon Pacheco, iniciou os contatos com a empresa e declarou que um final feliz se anunciava; em 1973, é criado o Fundo de Investimentos e Participações, que tem por finalidade destinar verbas do Estado a diversos empreendimentos industriais; no orçamento de 1973 do Estado, estão previstos gastos com a implantação da Fiat, antes mesmo de se concluírem as negociações com a empresa, o que se deu no decorrer de 1973; os trabalhos de terraplenagem e infra-estrutura começam neste mesmo ano, logo após a conclusão das negociações; em 1976, já havia carros Fiat nas ruas.
Nos anos 70, a política econômica estadual conhecida como “Nova Industrialização Mineira” colocou Betim em posição de destaque. Essa política, concebida por planejadores estatais, visava tirar Minas Gerais da posição de centro industrial periférico, fornecedor de insumos para o eixo Rio/São Paulo, tornando-o um centro autônomo. Para isso, foi criada a Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais (CDI), que planejou cinco distritos industriais na Região Metropolitana de Belo Horizonte: Betim, Vespasiano, Contagem, Santa Luzia e Belo Horizonte.
Betim, cujo distrito foi denominado Paulo Camilo, recebeu mais investimentos, tendo sido programada para ser o 2º pólo automobilístico do país. Segundo dados da CDI até 1979, Betim havia recebido 72,60% dos investimentos nos distritos industriais da RMBH e gerara 64,11% dos empregos diretos criados nestes mesmos distritos. É importante ressaltar que Betim sofreu uma alta especialização produtiva, isto é, grande parte de sua industrialização nesta época deu-se em função da indústria automotiva.
O processo de industrialização continua acelerado nos anos 80. Ao final desta década, a recessão da economia nacional faz diminuírem os investimentos, mas não os estanca. A especialização automobilística da indústria continua alta, mas as administrações municipais dos anos 90 e 2000, conscientes de que isso constitui uma fragilidade para a economia local, buscam incentivar a diversificação industrial. A recente criação do Distrito Industrial de Bandeirinhas faz parte deste contexto.
A economia rural betinense foi desagregada a partir dos anos 70. O número de pessoas ocupado nesta atividade é irrisório em relação aos setores secundário (indústria) e terciário (comércio e serviços), bem como sua participação na riqueza produzida. Destaca-se a produção de leite e de horti-fruti-granjeiros, distribuídos principalmente através do CEASA.
Conforme dados do Censo Demográfico 2000 do IBGE, o crescimento populacional de Betim, a cada ano, está na ordem de 5,03%. O mesmo Censo, em seus dados trabalhados, atesta que 26% dos chefes de família betinenses têm escolaridade máxima de 4 anos, isto é, um total despreparo para a inserção qualificada no mercado de trabalho industrial.

Geografia urbana e aspectos ambientais
Distante aproximadamente 30 quilômetros da capital, o município de Betim é hoje um importante pólo de concentração industrial do Estado de Minas Gerais e a segunda maior arrecadação de ICMS do estado, só perdendo para a capital, o município está entre as maiores economias do Brasil.
Quanto aos aspectos físicos, o município de Betim está localizado na Bacia do Rio Paraopeba, que o corta nas regiões oeste e sudoeste. O rio Paraopeba é um marco na definição da paisagem e define também a divisa entre Betim e os municípios de Igarapé, São Joaquim de Bicas e Juatuba.
Entre as diversas divisas municipais, podemos destacar a de Betim com o município de Contagem, do ponto de vista hidrográfico. Esta divisa é feita pela barragem da Várzea das Flores, a área de preservação de mananciais mais importante de Betim, responsável por 15% do abastecimento de água da região metropolitana de Belo Horizonte e onde se produz a água de menor custo para o sistema. De preservação fundamental, tem uso rural (sítios para fins-de-semana), lazer (banhistas nem sempre autorizados e a pista de kart) e urbano (Bairro Icaivera).
O município possui diversas micro-bacias hidrográficas, dentre as quais podemos destacar as sub-bacias do Rio Betim e do Riacho das Areias, que compreendem boa parte da região mais urbanizada da cidade, inclusive as regionais Centro e Alterosas.
Do ponto de vista climático, a temperatura média anual, fica em torno de 20 graus centígrados e o índice pluviométrico médio é de 1.450mm.
Em relação às áreas verdes e à fitogeografia, destacam-se no município dois tipos de biomas: o do Cerrado e o da Mata Atlântica. Na divisa com o município de Contagem, no bairro Icaivera, destaca-se na paisagem uma típica floresta de encosta, com topografia bastante íngreme. Próximo à ponte do rio Paraopeba, podemos constatar uma singular floresta de galeria, com a presença de muitas lianas e sub-bosque pouco denso. Na divisa entre Betim e Ibirité, encontra-se um cerrado bastante degradado pela formação de pastagens. Na estrada de Betim para Esmeraldas, podemos encontrar uma formação de cerrado bem desenvolvida, apresentando na sua paisagem os estratos arbóreo, arbustivo e herbáceo. Próximo ao centro da cidade, encontra o Parque Ecológico Engenheiro Felisberto Neves, que apresenta vegetação expressiva com porte arbóreo em torno de 25m.
Apesar dos grandes problemas ambientais existentes no município, a cidade vem tentando promover diversas ações de recuperação ambiental e reintegração social. A gestão dos recursos ambientais está a cargo Conselho Municipal de Desenvolvimento Ambiental (CODEMA). Várias iniciativas estão sendo realizadas como: saneamento básico, coleta seletiva de lixo e aterro sanitário, o que possibilita ao município receber o incentivo do ICMS Ecológico e buscar a melhoria da qualidade de vida para sua população. Como exemplo, destaca-se a construção de interceptores de esgoto ao longo do rio Betim, do riacho das Areias e de Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) em várias partes do município. Outra obra no setor ambiental é a Central de Tratamento de Resíduos Sólidos: o lixo que chega ao aterro sanitário, depois de triado, é prensado para ser vendido. O restante é enterrado.
Em relação à questão ambiental, podemos destacar a construção de várias avenidas sanitárias, dentre elas, a avenida Antônio Carlos, no bairro Teresópolis, avenida Porto Alegre, ligação entre as avenidas Edméia Lazarotti e Belo Horizonte e a avenida do Imbiruçu que liga a avenida Marco Túlio Isaac à via Expressa, facilitando o acesso da população da região do centro de Betim e aos municípios de Contagem e Belo Horizonte.
A população do município, que hoje totaliza quase 450 mil habitantes, tem crescido com taxas superiores à população da Região Metropolitana de Belo Horizonte e do Estado de Minas Gerais. Em 1970, quando o grau de urbanização da Região Metropolitana de Belo Horizonte era de 92%, Betim apresentava-se ainda como um município de população predominantemente rural, com um grau de urbanização de 46%, aproximadamente. Em curto período, o município passa por um profundo processo de transformação socioeconômica: em 1980 o município, já apresenta um grau de urbanização de cerca de 91%, ligeiramente inferior ao da Região Metropolitana de Belo Horizonte, que resultava em torno de 96%.
Fato notável é que Betim continua com alta taxa de crescimento urbano, mesmo passado o momento dos maiores impactos decorrentes da implantação da Fiat Automóveis em seu território, nos anos 1970. Com isso, observa-se que o município, por um lado, abriga um forte e moderno setor industrial e, por outro, configura-se como receptor de consideráveis fluxos migratórios que se dirigem para a Região Metropolitana de Belo Horizonte, compostos, em grande parte, por segmentos pobres e não qualificados da população.
Apesar de Betim, nas últimas décadas, estar ocupando a 2ª e a 3ª posição entre os municípios mineiros que mais arrecadam impostos, o que indica a vitalidade de seu setor privado, a renda per capita do cidadão betinense é de R$ 203, 22 e o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) é de 0,775, um pouco superior às médias estadual (0,719) e nacional (0,699), nas quais está contida uma reconhecida desigualdade de grandes dimensões. Do ponto-de-vista do desenvolvimento humano, o município ocupa, por exemplo o 135º lugar entre os 853 municípios mineiros (PNUD, 2000). Isso mostra que o modelo de desenvolvimento econômico adotado nem sempre está associado à elevação geral dos padrões de vida.




[1] Betim: 50 anos de emancipação (1938/1988). Revista editada pela PMB (Adm. Tarcísio Braga), p. 11.
[2] Estas indústrias pioneiras compuseram, juntamente com a Magnesita (Contagem), a Cerâmica Togni (Poços de Caldas), a Cerâmica João Pinheiro (Caeté), a Acesita (Coronel Fabriciano) e a Belgo-Mineira (Sabará), o setor de produção de refratários para a siderurgia mineira e para os parques siderúrgicos de São Paulo e Rio de Janeiro.
[3] Revista Tendência. “Por que a Fiat se instalou em Minas Gerais”. Agosto de 1973, nº 0, p. 50.

RODRIGUES, Lessandro Lessa.



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