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Crônica do Corona

Written By Ana Claudia Gomes on terça-feira, 7 de abril de 2020 | 14:15

Parece uma imagem do cinema distópico...


Crônica é coisa que trata do dia. Geralmente não se eterniza. A não ser que a pessoa autora consiga uma síntese da humanidade. Isso não está ao meu alcance.
É péssima hora para falar do Corona, o mais recente microorganismo a enfrentar a humanidade. Muita gente está falando desse tema, então sou uma na multidão.
A força do Corona está em ser muito novo e em matar mais ou menos 4% da população de uma vez. Tipo um arrebatamento.
Como não sabemos onde sucumbirá o próximo arrebatado, e não suportamos ver nossos mortos insepultos, o problema é de relevância mundial.
Mundial não apenas no que se refere à humanidade, mas também ao planeta e ao nosso cosmos.
Não havendo uma só visão de cosmos na humanidade, tenho visto construírem-se acordos. Acordos variáveis de acordo com o povo, nação ou continente, inclusive considerando o planeta.
Posso opinar mais sobre o Brasil, onde tenho alguma cidadania.
O que eu vejo do Brasil é que diversas variáveis e dados sobre o Corona em sua trajetória mundial estão sendo discutidos pela sociedade pouco antes de começarem a morrer entes queridos demais para cada um de nós. Ou de morrerem nossos artistas, médicos, professores, militares, um sem-fim.
É normal que a sociedade contemporânea debata acaloradamente, tendo em vista tantos conhecimentos de que dispõe. Especialmente as nações brasileiras, dentre elas centenas de nações originárias, num extenso território.
Parece que o Corona desafia nossos padrões éticos. Se podemos tolerar a morte dos idosos. Se podemos suportar a morte simultânea de ricos e de pobres, inclusive dos nossos ídolos. Se a nossa crença na ciência e na tecnologia se justificam.
Acho particularmente simbólico que, no Brasil, Corona seja traduzível por Coroa, e esta palavra também signifique pessoa mais velha. A mais vulnerável.
Nos últimos dias, deu para o Brasil medir a sua opinião pública. Dentre as posições possíveis, estavam, com destaque: o isolamento social tipo lock down; e o isolamento social restrito a grupos de risco.
Sabe-se que no modelo lock down, atrasa-se a incidência das mortes, devido à capacidade de absorção relativa dos doentes graves pelo sistema de saúde. Já no modelo de circulação social mais flexível, as mortes tendem a se concentrar em algumas semanas ou meses, e aí a maior parte da população se imuniza.
A lacuna ética é em que medida cada organismo terá chances, para além da providência divina, de sobreviver.
A sociedade brasileira se dividiu quase que meio-a-meio.
Considere-se que parte da população não participa ativamente da política porque, como disse Marx, está presa aos grilhões da necessidade. A parte que participa é a esfera pública, conforme definida por Habermas, e que está mais concentrada nas classes médias.
As posições para deixar morrer de uma vez se sustentam por diversos argumentos, e dentre eles me chama a atenção o religioso: confiemos no salvamento de Deus, seja ele concebido pela filosofia ou religião que for. Não havendo a crença de que a Terra possa se tornar um mundo melhor, a pessoa prefere esperar por um lugar melhor após a vida na Terra. Preciso dizer que muitos não têm outra alternativa a não ser crer assim.
Mas o argumento mais aventado é o do crash econômico que aparentemente virá.
As opiniões para tentar salvar cada vida se fundamentam também em muitos princípios e dados, inclusive sobre qual modelo de democracia ou autocracia funciona melhor em crises. E ainda sobre se a razão e a ciência podem ser como deuses para nós.
A categoria dos políticos profissionais, aqueles que nós pagamos para nos representar em assuntos de interesses grupais, sofreu um terremoto. Os três poderes, seja em nível federal, estadual ou municipal, moveram peças. 
Muita gente passa os dias a acompanhar o tabuleiro. Estou nesse grupo, mas sabendo que navegamos ao sabor das escumas, pois não é possível à maioria dos cidadãos compreender tudo o que está em jogo.
Parece-me que se forjou acordo temporário sobre um modelo híbrido de enfrentamento do Corona. Após a fritura do Ministro da Saúde em crise sanitária, optou-se por todas as partes cederem. A fala técnica oficial é pró-isolamento social, mas as práticas estaduais e municipais poderão considerar características locais. O presidente eventualmente parece não mais governar, mas continua falando a parte expressiva da população. População essa perpendicular às classes economicamente delimitadas.
Hannah Arendt, por exemplo, propôs que há uma porção de barbárie também presente na democracia e, de modo geral, no Estado moderno. Portanto, está presente também nas autocracias. Por isso elas, no enfrentamento do Corona, subordinaram a liberdade ao salvamento de vidas.
No Brasil, o que vai determinar o grau de isolamento social será a ocorrência pública de mortes em crescimento exponencial. Se não morre ninguém por perto, as comunidades parecem querer continuar vivendo normalmente, não apenas para ganhar dinheiro. Querem também o calor social. A quarentena é mais suportável para quem tem conforto cotidiano.
Para chegar a esse acordo, eu vejo que foram considerados grupos como: comunidades chamadas de favelas, categorias de trabalhadores formais e informais; pobres, classes médias e ricos; grupos religiosos, com ascendência evangélica, pois esta é uma ascendência demográfica; pessoas de numerosos gêneros; partidos políticos e sociedade civil organizada; uma gama. Teve gente com pouca força, mas presente, como as nações originárias, ditas indígenas, as pessoas em situação de rua e detentas em presídios.
As forças geopolíticas e culturais mundiais também pesaram muito.
Vejo alguns impérios no mundo: a China, os Estados Unidos, a Rússia, a Índia, a Europa, o Oriente Médio, o Brasil... O equilíbrio entre essas potências, algumas também territoriais, influenciou o modelo Brasil.
O alinhamento oficial do império do Brasil foi com o império dos Estados Unidos. Mas empresas brasileiras têm negócios com todos os impérios, então não podem ser ignoradas.
Uma divisão ideológica do mundo moderno entre liberais e socialistas também pesou: para enfrentar o Corona, o liberalismo retomou medidas de cunho socialista, que foram absorvidas ao modelo social praticamente planetário, mas estavam em franco recuo.
Nesse ínterim, porém, é preciso acentuar a presença dos fascismos em qualquer dos grupos, que impede uma visão favorável a acordos políticos, potencialmente transversais a ideologias. Chamo fascismo a uma recontextualização do conceito histórico para ódios tribais atuais.
O debate entre crescimento econômico perpétuo, que se dá pelo empreendedorismo, e a distribuição ética da riqueza, que se dá pela intervenção estatal voltada aos trabalhadores e inativos, também se fez presente.
Socorreram-se primeiro e rapidamente os empreendedores, com expressivos orçamentos. Depois, e com agonia visceral, começou o socorro aos trabalhadores e inativos, com orçamento muito menor. O que denota o modelo hegemônico no Brasil atualmente, o liberal.
Esse liberalismo que se pratica não é a teoria liberal na íntegra. Até porque a empiria não se molda à teoria. É uma seleção de certos trechos da teoria, formando um receituário, assim como fazemos com a Bíblia e com qualquer outro livro sagrado ou cosmogonia. 
A esse receituário se chama neoliberalismo, que consiste na crença em ser o mercado o motor da perpetuação do sistema social, por isso tendo prioridade. E adota procedimentos de matrizes diversas.
Mas nada há de melhor para descrever o modelo Brasil do que uma reunião de homens, representando os diversos grupos de interesses fortes no Brasil, e cada um cedendo onde não tem jeito de mandar. Essa hegemonia do sexo masculino nos cargos de decisão me parece deletéria para a política.
Um acordo temporário se fez. Os próximos dias dependem de como vai se comportar a opinião pública e seus representantes na política profissional.
Eu sou pelo pagamento de qualquer preço para proteger vidas humanas, ainda que a humanidade tanto me encante quanto me entristeça.
Alguns anos de intenso trabalho podem aumentar a cidadania da humanidade. Mas não há garantias.


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