O apartheid

Written By Ana Claudia Gomes on terça-feira, 27 de setembro de 2016 | 17:38


Não esqueço o Serjão. Meu primeiro professor de história. Parecia descendente de indígenas em nação negra. Pele vermelha. Cabelos lisos à altura dos ombros. Totalmente grisalhos. Com uma franja infame perfeitamente caída sobre a testa. De tão grande e forte, o achávamos boxeador.
Já chegou usufruindo de sua fama de terror. Da qual ouvíamos casos horripilantes desde a terceira série. Escreveu no quadro cinquenta especiarias. Antigamente compradas pelos lusitanos às Índias. E nos mandou decorar na ordem. Ao som do sinal, avisou. Próxima aula. Prova oral. Tem que saber qual é o número de cada especiaria.
Juntou seus materiais e saiu tranquilamente deixando a lista no quadro.
Não saímos aos atropelos, depois que ele já estivesse longe no corredor. Conversamos em grupinhos como seria prova oral.
Dei graças por na igreja. Toda a vida. Ter memorizado poemas, versículos, até mesmo capítulos. Dei graças por Damiana ter sacado. Vejam. Está em ordem alfabética. De um a três, letra A. Podemos estudar assim.
Chega Serjão próxima aula. Escreve no quadro Prova Oral. Pega a lista de chamada. Aline. Especiaria número trinta e um. Especiaria número dezoito. E assim sucessivamente. Ficávamos imóveis e silenciosos. Enquanto cada colega homem pagava mico. Exceto Roger Vinicius.
Pobres de meus colegas. Teve zero a rodo. Mas Damiana acertou as cinco especiarias.
Também acertei. Pela orde. Embora só há pouco soube o que vem a ser açafrão, anis-estrelado, gengibre. E soube com muito gosto. Cravo e canela eu já sabia dos doces da minha mãe.
E assim correu a quinta série. Uma lista por semana. Quem conseguiu se safar deste e de outros professores do terror. O que foi pouca gente. Só foi reencontrar o Serjão na oitava-série. A professora Angelita, da sexta e da sétima, dizem que era meio hippie. Era de boa.
Serjão chegou no quinto horário da segunda-feira. Março, primeiro dia de aula. Ano da formatura. Já com panca de vocês me conhecem. Eu dou aula para os calouros e para os formandos. Que é para ensinar como se entra e decidir quem sai. 
Nossos corações já apaixonados, por guapos morenos do segundo grau. Batiam na garganta.
E assim seguiu Serjão. De lista em lista. Imagina. República Velha. Revolução de 30. Nazismo. Segunda Guerra. A conquista do espaço. Os países comunistas.
Até que no quarto bimestre. Já a ponto de decidir quem ia se formar. Surpreendeu. Fez uma lista de grandes personalidades na luta pela libertação dos povos negros no mundo. De título Apartheid. 
Era muita personalidade. Na minha prova caiu Rosa Parks. E Nelson Mandela. Além de Castro Alves. Do qual pouco depois li, em literatura, Navio Negreiro.
Não era o tipo de assunto comum nas listas de Serjão. E Roger Vinicius bem sabia que Serjão não gostava de perguntas. Terminava de anotar a lista no quadro e falava vozeirão. Alguma dúvida? Ninguém esboçava reação. Próxima aula. Prova oral. 
Roger Vinicius levantou o pálido dedo. Menino magérrimo, amarelo de livros, sempre atrevido. Meu grande amigo. Serjão autorizou. Professor, o que é apartheid. 
Serjão caminhou até sua mesa. E assentou-se nela mesma. Ao que quase caímos de nossas carteiras. Pois Serjão não era dessas liberdades.
Bem. Começou. É um assunto tão complicado que acho melhor contar uma piada. Creio que toda respiração na classe cessou. 
Imaginem um país distante. Um candidato a presidente entra no ônibus do bairro negro e diz. Meu povo. Temos que acabar com a segregação racial. Se eu for eleito não haverá mais pretos e brancos. Todos serão verdes. Fica decretado.
A maioria no ônibus dispensou calorosos aplausos à ideia. O povo elegeu para presidente tal candidato. 
Findo o recesso parlamentar, entra no mesmo ônibus o guarda civil. Qual mensageiro real. Desdobra um pomposo papel que lê com voz solene. Lei proposta pelo excelentíssimo senhor presidente ao parlamento. E por ele aprovada. De hoje em diante todos os cidadãos desse país são verdes. Dobra de novo o texto da Lei. E diz. Os cidadãos verde-escuros devem se deslocar para o fundo do ônibus. Os cidadãos verde-claros devem assentar na dianteira do ônibus.
Ficamos em estado de choque. Não sabíamos se podíamos ou se queríamos rir da piada do Serjão. Tem gente que não sabe contar piada.
Serjão simplesmente se virou para o quadro que apagou. E iniciou outra lista. Piada do Apartheid. Era o título. Parlamento. Lei. Segregação. Decreto. Povo. E assim sucessivamente.
Creio que ele teria sido melhor como colecionador ou qualquer outra ocupação que contemple listas. Não falo por mim. Mas pelos meus colegas que perderam o ano.
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